“Vozes da Periferia”: livro dá protagonismo a jovens escritores e rompe o silenciamento das margens 

Organizada pela professora Ana Júlia Lima, a obra será lançada no Festival Juá Literária, em Juazeiro, e também terá sessão de autógrafos e bate-papo com os autores no Sesc Petrolina.

Há histórias que nascem antes mesmo da escrita. Crescem nas ruas, nos quintais, nas conversas de fim de tarde, nas ausências, nos afetos e nas resistências cotidianas. Durante muito tempo, muitas dessas histórias permaneceram restritas aos limites da periferia. Agora, elas encontram no livro “Vozes da Periferia” composto por autores que são estudantes da Escola Municipal de Educação em Tempo Integral Mãe Vitória, um espaço para atravessar fronteiras e alcançar novos leitores.

Organizada pela professora de Língua Portuguesa Ana Júlia Lima, natural de Juazeiro (BA), a obra será lançada no Festival Juá Literária, no dia 23 de julho, às 16h, em formato de mesa literária com a participação de três autores. O encontro contará com apresentação da obra, diálogo com o público e troca de experiências sobre o processo de criação do livro. Já em 3 de setembro, às 19h, haverá um novo lançamento na Biblioteca do Sesc Petrolina, com sessão de autógrafos e bate-papo reunindo os autores.

Publicado pela Editora Vecchio, o livro reúne 26 jovens autores da Escola Municipal de Educação em Tempo Integral Mãe Vitória, em Petrolina (PE), em uma coletânea de 80 páginas composta por contos, poemas, prosas poéticas e poesias blackout. O projeto nasceu a partir de uma disciplina eletiva de escrita criativa e se transformou em uma experiência de formação literária, escuta e pertencimento. Mais do que uma coletânea de textos, “Vozes da Periferia” apresenta um território narrado por quem o conhece por dentro. Entre memórias, revoltas, sonhos, perdas e afetos, os estudantes escrevem sobre si mesmos e sobre a realidade que os cerca, revelando que a literatura também pode nascer nas margens e, justamente por isso, iluminar o centro das discussões sociais.

Para Ana Júlia Lima, a publicação representa a realização de um propósito construído ao longo de sua trajetória como educadora. “O ‘Vozes da Periferia’ representa a concretização de um sonho e de uma missão que sempre tive como professora: fazer com que meus estudantes percebam que suas histórias importam e que suas vozes merecem ser ouvidas. Ensinar Língua Portuguesa vai muito além da gramática. Educar também é criar espaços de escuta, de pertencimento e de expressão para que a escrita faça sentido, circule para além da sala de aula e dialogue com a sociedade”, explica a professora.

A professora destaca que acompanhar o desenvolvimento dos estudantes foi um dos aspectos mais marcantes do projeto. “Ao longo da eletiva, vi jovens que muitas vezes não se enxergavam como artistas, com a autoestima fragilizada, descobrirem na escrita uma forma de falar sobre quem são, sobre o lugar onde vivem e sobre os sonhos que carregam. Meu papel foi incentivá-los a acreditar que suas palavras têm valor e que eles também podem ocupar esse lugar na literatura ou onde quiserem. Meu maior desejo é que este livro mostre que a periferia não é apenas um território de carências, mas um solo fértil de criatividade e produção de conhecimento”, ressalta Ana Júlia.

Entre as vozes reveladas pela publicação está a estudante Raiani Leite, de 14 anos, considerada uma das grandes descobertas literárias da obra. Em um de seus textos, a autora conduz o leitor por uma narrativa intensa sobre infância, fome e sobrevivência, demonstrando uma maturidade literária que impressiona pela sensibilidade e pela força das imagens construídas. Para Raiani, o livro simboliza um gesto coletivo de resistência. “Esse livro representa um ato de rebelião de todas as vozes que não foram ouvidas e que clamam por uma faísca de esperança. Vivemos em um sistema que decide quem seremos apenas pelo lugar onde nascemos. Encontramos, na escrita, a arte de sermos ouvidos. Nossas vozes só serão ouvidas por meio de um ato de rebelião”, reforça a estudante.

Essa rebeldia, no entanto, não se manifesta pela violência, mas pela palavra. Uma palavra que rompe silêncios, questiona estereótipos e reivindica o direito de existir em sua plenitude. Em versos como “Somos a voz da periferia / somos filhos da rebeldia”, escritos por Cícera Adriana de Sousa Almeida, a coletânea reafirma que a literatura pode ser instrumento de transformação, pertencimento e esperança. Ao reunir jovens escritores que encontraram na escrita uma forma de narrar suas próprias vidas, “Vozes da Periferia” demonstra que talento não depende de CEP, renda ou origem. Depende, sobretudo, de oportunidade. E quando ela chega, palavras antes silenciadas deixam de ecoar apenas nas ruas para ocupar, definitivamente, as páginas da literatura brasileira.

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