Produção de uva e manga movimenta a economia do Sertão pernambucano, fortalece pequenos negócios rurais e consolida região como referência nacional e internacional
Por: Samuel Santos
“A terra dos impossíveis” é como muitos se referem ao Vale do São Francisco. Banhado pelo rio de mesmo nome, o território sertanejo provou que o semiárido pode surpreender. A prova disso é a ascensão da fruticultura irrigada, iniciada na segunda metade do século 20. As culturas que melhor se adaptaram ao clima seco e à chegada das águas do Velho Chico às lavouras foram a uva e a manga, frutas que ajudaram a consolidar cadeias produtivas robustas e com grande potencial de mercado, dentro e fora do país.
Grande parte do sucesso dessas cadeias está associada aos pequenos negócios do campo. Produtores rurais de Petrolina, no Sertão pernambucano, e de municípios vizinhos, como Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, são responsáveis pelo cultivo de diferentes variedades de uvas e mangas de características singulares, utilizadas tanto para o consumo in natura quanto para o produto final. Cooperativas, associações e agricultores familiares transformam conhecimento técnico em geração de renda e desenvolvimento regional.
O Sebrae/PE acompanha os empreendedores da fruticultura, levando orientações voltadas ao fortalecimento da atividade na região.“Temos avanços, mas há ainda o desafio de ampliar a formalização, melhorar a distribuição e buscar certificações que permitam acessar com mais força os mercados internacionais. Por isso, é fundamental o trabalho que o Sebrae desenvolve, que leva consultoria, inovação, gestão e acesso a novos mercados para esses agricultores. Também promovemos a participação de produtores em feiras e rodadas de negócios, fortalecendo o associativismo e o cooperativismo e atuando junto a instituições públicas e privadas, para ampliar a competitividade e a sustentabilidade da fruticultura no Vale do São Francisco”, destaca Gledson Mattos, especialista em Agronegócio do Sebrae/PE.
UVA O ANO INTEIRO
A viticultura ganhou espaço no Vale do São Francisco a partir da década de 1970, com a introdução de variedades adaptadas às condições locais. O grande diferencial da região está na possibilidade de produzir mais de uma safra por ano – algo raro entre os principais polos produtores do mundo.
O clima quente, a alta incidência solar durante boa parte do ano e as técnicas de irrigação e poda dos parreirais garantem elevados índices de produtividade e oferta regular do produto no mercado. O resultado é que a região se consolidou como um dos principais pólos exportadores de uvas frescas e vinhos do Brasil.
O Vale do São Francisco é hoje o maior produtor de uvas do país, responsável por cerca de metade da produção nacional e por mais de 90% das exportações da fruta, tendo Europa e Estados Unidos entre os principais mercados consumidores. De acordo com dados da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, são produzidas aproximadamente 850 mil toneladas de uva por ano na região.
Petrolina segue liderando a produção, com mais de 12 mil hectares dedicados à cultura. Em toda a região do Vale, a área plantada saltou de 10 mil hectares, em 2011, para cerca de 15 mil hectares atualmente.
Graças à chamada viticultura tropical, a produção ocorre em temperaturas elevadas, diferentemente de outras regiões produtoras de clima frio ou temperado. O desempenho da cultura no semiárido é resultado de técnicas específicas de cultivo desenvolvidas a partir de pesquisas conduzidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Semiárido).
O OURO SERTANEJO
Fruta tropical de alto valor agregado, a manga começou a ganhar espaço no Vale do São Francisco entre as décadas de 1980 e 1990, deixando de ser uma cultura experimental para se tornar uma atividade consolidada e marcada pela diversidade de variedades, valorizadas nos mercados nacional e internacional.
O clima semiárido, a alta luminosidade e a disponibilidade hídrica são fatores determinantes para a produção de frutos com características diferenciadas. Graças às técnicas de manejo e cultivo, a manga produzida no Vale carrega particularidades difíceis de encontrar em outras regiões, como equilíbrio entre açúcar e acidez, coloração intensa e menor incidência de doenças — fatores altamente valorizados pelo mercado. A introdução de tecnologias no campo também possibilitou o cultivo de diferentes variedades da fruta ao longo do ano, garantindo produtividade contínua e fortalecendo a renda dos produtores locais.
Assim como a uva, a manga é cultivada praticamente durante todo o ano, consolidando-se como uma importante fonte de renda para agricultores familiares e empresas exportadoras instaladas na região. A cadeia produtiva também contribui para a permanência das famílias no campo e para o fortalecimento da economia regional.
Segundo o IBGE, Pernambuco possui pouco mais de 21 mil hectares destinados ao cultivo da manga e registrou produção de 282 mil toneladas da fruta em 2024. Os principais municípios produtores são Petrolina, Belém do São Francisco, Santa Maria da Boa Vista e Lagoa Grande.
RIQUEZAS DE PERNAMBUCO
A uva e a manga do São Francisco são tema de um dos episódios da série “Riquezas de Pernambuco”, produzida pelo Sebrae/PE, que enaltece as cadeias produtivas que impulsionam o desenvolvimento local. A iniciativa é uma forma de reconhecer os protagonistas dessas tradições e revelar como o saber-fazer local transforma vidas e movimenta economias. Os episódios vão ao ar semanalmente, no canal youtube.com/sebraepe.
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