Quando a crueldade vira espetáculo, algo morre em todos nós

Há crimes que não pedem debate.

Pedem silêncio, espanto e vergonha.

Porque quando um ser humano sente prazer em torturar um animal, não estamos diante de um erro juvenil, de um excesso ou de uma “brincadeira”. Estamos diante de algo profundamente quebrado na alma humana.

Um cão não é apenas um animal.

Um cão é presença.

É lealdade sem cálculo.

É amor sem contrato.

É companhia que não abandona.

Quem convive com um cão sabe: eles entram na nossa biografia, mas nós somos toda a biografia deles. Eles reconhecem o nosso cheiro, o nosso passo, o nosso silêncio. Sentem quando estamos cansados, abatidos, perdidos. Há cães que compreendem mais de humanidade do que muita gente que se diz civilizada.

Por isso, a crueldade contra um animal nunca é um ato isolado. É um sinal. Um alerta grave.

Quando adolescentes espancam um cão indefeso, cravam pregos em sua cabeça, o deixam agonizar durante a madrugada inteira, riem, filmam e zombam, é preciso dizer com todas as letras: isso não é imaturidade. Isso não é travessura. Isso é violência extrema. É sadismo. É desumanização.

A psicologia e a história são claras: a crueldade contra animais é um dos sinais mais preocupantes de transtornos de personalidade. Quem se diverte com a dor do indefeso não pode ser tratado como “normal” até que seja investigado, contido e tratado. Fingir normalidade é compactuar com o risco.

Mas o que mais revolta não é apenas o ato. É o entorno.

É o dinheiro tentando abafar.

É o sobrenome tentando intimidar.

É a estrutura social funcionando como anestesia moral.

É o silêncio comprado.

É a ameaça velada.

É a blindagem.

Enquanto um animal agoniza, outros embarcam em viagens internacionais. Enquanto a dor ainda pulsa, a impunidade passeia. E isso dói porque sabemos: não é um caso isolado. Isso acontece todos os dias, longe das câmeras, longe dos holofotes, principalmente onde não há sobrenomes fortes para chamar atenção.

A justiça, infelizmente, nem sempre é cega. Muitas vezes, ela enxerga muito bem quem tem poder.

Hoje escrevo não como articulista. Escrevo como alguém que cria cães, que já perdeu um deles, que sentiu o vazio no olhar dos filhos, que sabe o que é chegar em casa esperando um ritual que nunca mais acontece.

Escrevo porque isso me tirou o sono. Porque me lembrou que a barbárie não começa com grandes atrocidades coletivas. Ela começa quando normalizamos a dor do mais fraco.

Um povo que tolera crueldade contra animais ensaia algo muito pior. Porque quem aprende a matar sem culpa um ser indefeso aprende rápido a matar o que vier depois.

Este texto não é político.

É humano.

É um pedido de limite.

É um pedido de basta.

Não se trata de vingança. Trata-se de proteção social. Há comportamentos que exigem intervenção, não aplauso. Há famílias que precisam responder, não acobertar. Há uma sociedade que precisa parar de chamar monstruosidade de “caso isolado”.

Hoje morreu um cão.

Mas algo já vinha morrendo há muito tempo:

A nossa capacidade de nos indignar como dever moral.

Se isso não nos revolta, então o problema já não está apenas neles.

Rivelino Liberalino

Bel. Rivelino Liberalino OAB/PE 534/B

advogado militante nas áreas cível e trabalhista, pós graduado em Direito Tributário pelo IBPEX- Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão.

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