Milícia de Vorcaro no Rio tinha fuzis, snipers e carros blindados, aponta PF

PF recuperou mensagens em que a irmã e a mãe do Sicário foram abordadas por integrantes da organização criminosa para manterem silêncio, após reclamações

O Tempo

O empresário Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, mantinha uma espécie de milícia no Rio de Janeiro, com homens fortemente armados, incluindo snipers, e carros blindados, segundo investigação da Polícia Federal (PF).

Esse braço armado da organização criminosa liderada pela família Vorcaro tinha como chefe Manoel Rodrigues, conhecido como Manolo, ainda de acordo com a PF. Ele aparece em várias conversas recuperadas por peritos nos celulares dos investigados.

Em documento enviado ao ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), que foi tornado público nesta terça-feira (16/6), os investigadores dizem que Manolo comandava “organização de natureza paramilitar”.

Tal aparato era colocado “à disposição dos interesses do núcleo empresarial vinculado à família Vorcaro”, aponta a PF, sendo usado para garantir a segurança de empreendimentos e interesses econômicos do grupo.

A PF cita no relatório “situações em que terceiros foram recebidos por indivíduos armados com fuzis e mediante o uso de veículos blindados, circunstâncias que, ao invés de transmitir segurança, causaram temor aos envolvidos”.

Numa dessas situações, detalhadas em conversas por mensagens de WhatsApp dos investigados recuperadas pela PF, um deles relatou que, “visitantes” falaram que se sentiram na “Rússia do Putin”, conhecida por seu aparato militar estruturado e com muito poder de fogo.

Já em outro diálogo por mensagens de texto, um integrante do grupo de Vorcaro afirmou que a “estrutura usada por Manolo era mais segura e mais organizada do que a de muito político”, o qual respondeu que o “seu decano” [Henrique Vorcaro, pai de Daniel] queria ter colocado mais [segurança] e que ele não havia deixado.

‘PM bom é os que estão do nosso lado’, disse aliado de Vorcaro

Em um diálogo travado em 25 de setembro de 2025, Manolo e um aliado dos Vorcaro, André Martins Hodge, trataram de indivíduos que teriam sido contratados pela organização criminosa para fazer a segurança de um empreendimento, mas que não vinham desempenhando adequadamente a atividade de vigilância, o que motivou a rescisão do contrato.

A situação foi superada quando o grupo de Manolo assumiu o serviço. Ao contar sobre o encerramento do vínculo com o responsável anterior, ele afirmou que estava com quatro policiais militares para recebê-lo. Manoel afirmou que, na ocasião, disse que estava sozinho, mas, na verdade, contava com um “sniper de longe”.

São conhecidos como “sniper” atiradores com alta precisão de acerto em disparos à grande distância, em regra, militares ou policiais altamente treinados.

No mesmo diálogo, Manolo afirmou, ainda, ter aversão a policiais militares, afirmando que “PM bom é debaixo de 7 palmos”. André Hodge o corrigiu, afirmando que “PM bom é os que estão do nosso lado”.

Os investigadores também dizem ter identificado “indícios da existência de negócios de elevado vulto” entre Manolo e Henrique e Daniel Vorcaro, “com possíveis práticas de lavagem de dinheiro e ocultação de bens e valores ilícitos”.

Os federais ressaltam que tais práticas “teriam persistido mesmo após o avanço das investigações e a deflagração de múltiplas fases” da Operação Compliance Zero, que desde novembro vem levantando provas de crimes ligados aos Vorcaro.

PF diz ter provas que Vorcaro comprou silêncio dos parentes de Sicário

Os policiais dizem ter apurado que, após a morte de Luiz Phillipi Mourão, conhecido como Sicário e apontado como o líder do braço armado dos Vorcaro em Minas Gerais, Manolo foi à Belo Horizonte (MG), a pedido de Henrique Vorcaro, para silenciar a família do falecido.

Sicário morreu dois dias após se enforcar em cela da PF na capital mineira, para onde foi levado após ser preso na terceira fase da Compliance Zero, em março. Phillipi era chamado de Sicário por Daniel Vorcaro.

A PF afirma ter indícios de pagamentos a familiares do Sicário, “buscando assegurar o silêncio” deles “quanto às atividades ilícitas praticadas pelo grupo”.

Em várias mensagens por celular, Joana Machado de Moraes Mourão, irmã de Sicário, disse a pessoas próximas que ela e sua família sofreram todo tipo de ameaça, após a morte do irmão.

Em conversas por textos em grupo de WhatsApp que tinha o seu primo Keysom Lúcio Silveira e Manolo, Joana Mourão fez um desabafo sobre o suposto desamparo da família Vorcaro após a morte do irmão dela.

Joana afirmou que tinha “material” para “acabar com foda a família” Vorcaro e aliados, personagens do maior escândalo financeiro do país, exposto nas diferentes etapas da Compliance Zero.

Irmã de Sicário relatou ameaças e culpou a família Vorcaro

Em uma série de mensagens recuperadas por peritos da PF, Joana expôs a Keysom e Manolo a situação extrema que ela e sua mãe enfrentavam desde a morte do Sicário, atribuindo a responsabilidade a família Vorcaro, sobretudo a Daniel Vorcaro e seu pai, Henrique Vorcaro.

Joana chegou a afirmar que eles teriam “tirado dela e a vida do irmão” e “tudo que ela tinha”. Disse que ela e a mãe estavam sofrendo ameaças de serem presas e ameaças de morte por meio de vídeos com a exibição de fuzis, além de toda dificuldade financeira que estariam enfrentando.

Joana reclamou que a família Vorcaro manteve o padrão, mesmo após a prisão de Daniel Vorcaro, e que estariam “vivendo como reis”, enquanto ela e mãe estavam abandonadas, muito embora o irmão tenha sido leal a vida inteira aos Vorcaro.

Joana escreveu, na mesma troca de mensagens, que havia acabado de discutir com Henrique Vorcaro, afirmando que ele estava “apavorado”, pois “sabe o que tem em mãos”, se referindo muito provavelmente a provas de crimes praticados pelo irmão a mando dos Vorcaro.

A irmã de Sicário ressaltou que estava disposta a expor Henrique Vorcaro, bem como toda a sua família, enquanto Manolo e Keysom tentavam apaziguar a situação. Sicário tinha extensa ficha criminal, com anotações por estelionato, receptação, uso de documento falso e ameaça.

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