Debandada contra Marília levanta suspeita de movimento para fortalecer Humberto Costa ao Senado

Uma debandada em série, espalhada por diferentes regiões de Pernambuco e anunciada praticamente de uma só vez, dificilmente passaria despercebida no tabuleiro político. Neste sábado (8), prefeitos, vice-prefeitos, vereadores e outras lideranças anunciaram a retirada do apoio à pré-candidatura de Marília Arraes (PDT) ao Senado. Pela dimensão e pelo timing, o episódio ganha características de movimento coordenado e surge como uma forte tentativa de enfraquecer Marília e, por consequência, favorecer o projeto de reeleição do senador Humberto Costa.

Na linha de frente estão os prefeitos Josafá Almeida (PRD), de São Caetano; Sandra Paes (Republicanos), de Canhotinho; Erivaldo Chagas (Republicanos), de Lajedo; Duda Lira (PSDB), de Cupira; e César Freitas (PCdoB), de Sanharó. Todos decidiram desembarcar do projeto de Marília. Segundo a justificativa apresentada pelo grupo, a decisão ocorre diante de acontecimentos recentes e do suposto não cumprimento de compromissos políticos anteriormente assumidos. Além desses, mais de 15 lideranças, de várias regiões do estado também romperam com Marília.

A articulação é liderada supostamente pelo presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco, Álvaro Porto (MDB). Mas o tamanho da lista e, principalmente, sua capilaridade pelo estado fazem surgir uma pergunta inevitável: trata-se apenas de uma sequência de insatisfações coincidentes ou alguém resolveu organizar a fila do desembarque?

Curiosamente, a lista reúne até nomes do próprio PSB. E é justamente aí que a história ganha uma boa dose de pimenta.

Se Marília perde musculatura na corrida pelo Senado, quem tende a respirar mais aliviado? Entre os beneficiários políticos possíveis está justamente Humberto Costa, que busca renovar seu mandato. Uma retirada simultânea de apoios a uma concorrente competitiva pode alterar forças, palanques e estruturas municipais numa eleição majoritária. Isso, por si só, não comprova uma articulação em favor de Humberto, mas torna legítima a leitura política sobre quem ganha com o enfraquecimento de Marília.

E João Campos, entra onde nessa história?

A pergunta que começa a circular nos bastidores é ainda mais incômoda: o pré-candidato ao Governo de Pernambuco João Campos (PSB) tem conhecimento ou participação nesse movimento que, na prática, ajuda a rifar sua própria prima da disputa pelo Senado?

A dúvida ganha ainda mais peso porque João e Marília carregam um histórico político longe de ser exatamente uma reunião de família aos domingos.

Os dois primos protagonizaram o segundo turno da eleição para a Prefeitura do Recife em 2020. A disputa foi marcada por forte acirramento, troca de acusações e ataques mútuos. O Jornal do Commercio registrou à época que a campanha teve sucessivas “trocas de farpas e ataques diretos”, além de uma enxurrada de disputas na Justiça Eleitoral.

João acabou vencendo aquela eleição com 56,27% dos votos válidos, contra 43,73% de Marília.

Passados seis anos, os dois demonstraram publicamente ter enterrado o machado de guerra e reconstruído pontes políticas. Mas, diante de uma debandada dessa proporção, inclusive com integrantes do próprio PSB, a pergunta volta à mesa: a paz entre os primos continua valendo ou, na política pernambucana, o tratado tinha letras miúdas?

Por enquanto, não há elemento apresentado que permita atribuir a João Campos participação na articulação. Mas uma coisa é objetiva: Marília acordou neste sábado com bem menos apoios e seus adversários na disputa pelo Senado, com alguns problemas a menos.

E, em política, coincidência demais costuma virar assunto de bastidor.

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