Avanço dos carros chineses expõe nova ordem do comércio internacional

As importações de carros chineses pelo Nordeste tiveram alta de 815% entre os primeiros semestres de 2025 e 2026

Por Patricia Raposo / FolhaPE

A notícia de que o Brasil se tornou o maior importador de carros chineses do mundo não representa apenas uma mudança nas preferências dos consumidores. O movimento faz parte de uma transformação mais ampla no comércio internacional, marcada pelo enfraquecimento do sistema multilateral, pelo avanço de políticas protecionistas e pela disputa entre as grandes potências por mercados, investimentos e domínio tecnológico.

Nos primeiros cinco meses de 2026, o Brasil comprou US$ 5,2 bilhões em veículos chineses, ante US$ 2,1 bilhões no mesmo período de 2025, segundo dados divulgados pelo Valor Econômico. O crescimento foi de 149% no período.

Diante desse cenário, o Movimento Econômico buscou compreender como o Nordeste se inseriu nesse contexto. Reportagem da jornalista Angela Fernanda Belfort mostrou que a expansão foi ainda mais intensa na região. As importações de veículos passaram de US$ 153 milhões para US$ 1,4 bilhão na comparação entre os primeiros semestres de 2025 e 2026, uma alta de 815%.

Os números mostram que os veículos chineses não estão apenas conquistando espaço comercial. Eles se tornaram parte da estratégia de inserção econômica da China no Brasil, especialmente em um momento no qual o país asiático busca ampliar suas exportações diante da desaceleração da demanda doméstica.

Em entrevista ao podcast do Movimento Econômico, que estará disponível na próxima semana no canal do portal no YouTube, o advogado Luciano Buchatsky observou que o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio abriu espaço para relações internacionais menos orientadas por regras coletivas e mais condicionadas pela força econômica de cada país.

Nesse novo ambiente, Estados Unidos e China adotam estratégias distintas para defender seus interesses. Os norte-americanos recorrem principalmente às tarifas para proteger setores considerados estratégicos e pressionar seus parceiros comerciais.

A China atua de maneira diferente. Em vez de apenas fechar seu mercado ou elevar tarifas, amplia sua presença internacional por meio da exportação em larga escala, do financiamento, dos investimentos em infraestrutura e da instalação de unidades produtivas em outros países.

“São duas formas de se impor: o investimento em infraestrutura e o domínio econômico”, afirmou Buchatsky durante a entrevista. Os chineses vêm ampliando sua presença em estruturas portuárias, energia e tecnologia, ao mesmo tempo que ocupam mercados com produtos de alto valor agregado.

Isso não significa que a estratégia chinesa esteja livre de protecionismo. Ao contrário, sua competitividade foi construída com forte participação do Estado.

A instalação da BYD em Camaçari, na Bahia, ajuda a compreender essa dinâmica. A chegada da montadora representa uma oportunidade de reindustrialização para o Nordeste, com potencial para gerar empregos, incorporar tecnologia e estimular uma nova cadeia produtiva. Ao mesmo tempo, o crescimento das importações de veículos prontos levanta dúvidas sobre o ritmo e a profundidade desse processo.

O problema não está na entrada do investimento estrangeiro, que pode trazer benefícios ao país. A questão central é saber quanto valor será efetivamente gerado no Brasil, quantos fornecedores nacionais serão incorporados e qual será o volume de tecnologia e empregos transferido para a economia local.

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