Anvisa proíbe peeling de fenol e abre investigação sobre potenciais danos da substância

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a venda de produtos à base de fenol e o seu uso em procedimentos de saúde em geral ou estéticos no Brasil. A resolução 2.384/2024, que estabelece a medida, foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) nesta terça-feira e já está valendo.

Em nota, a autarquia afirma que a proibição permanecerá vigente enquanto conduz investigações sobre os potenciais danos associados ao uso da substância química, “que vem sendo utilizada em diversos procedimentos invasivos”.

A medida cautelar adotada pela Anvisa tem o objetivo de zelar pela saúde e integridade física da população brasileira, uma vez que, até a presente data, não foram apresentados à Agência estudos que comprovem a eficácia e segurança do produto fenol para uso em tais procedimentos”, continua.

No início do mês, o empresário Henrique Silva Chagas, de 27 anos, morreu em São Paulo após um peeling de fenol, o que acendeu o alerta de entidades de saúde e especialistas. O procedimento foi feito pela esteticista e influenciadora Natalia Fabiana de Freitas Antonio, conhecida como Natalia Becker nas redes sociais, em que acumula mais de 200 mil seguidores.

Ela alega ter feito um curso online sobre o procedimento, o que ainda assim não seria suficiente para torná-la apta, alertam os médicos. Natalia foi indiciada por homicídio doloso com dolo eventual, e a Vigilância Sanitária de São Paulo fechou e multou o Studio Natalia Becker por falta de autorização.

O peeling de fenol é uma técnica utiliza uma substância ácida, o fenol, para induzir a queimadura e descamação da pele e, consequentemente, a renovação celular. Ele é considerado um procedimento invasivo, mas indicado para tratar casos de envelhecimento facial severo, caracterizados por rugas profundas e textura da pele consideravelmente comprometida, como por acne grave.

O caso em São Paulo gerou repercussão entre as autoridades de saúde. Na nova medida, a Anvisa proibiu não apenas a venda e o uso dos produtos à base de fenol, como também a importação, a fabricação, a manipulação e a propaganda dos itens.

A Anvisa reforça que a medida cautelar foi motivada por preocupações com os impactos negativos na saúde das pessoas e reflete o compromisso da Anvisa com a proteção à saúde da população brasileira”, diz.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) também se posicionou sobre o tema após a morte do empresário paulista. Afirmou que, por se tratar de um procedimento estético invasivo, o peeling de fenol deveria ser realizado apenas por médicos especializados.

Além disso, defendeu que mesmo quando feito por médicos, precisa “ocorrer em ambiente preparado com obediência às normas sanitárias e estrutura para imediata intervenção de suporte à vida, em caso de intercorrências”, como um ambiente hospitalar.

O Conselho pediu às autoridades de Vigilância Sanitária que reforcem a fiscalização aos estabelecimentos e profissionais que prestam esse tipo de serviço “sem atenderem aos critérios definidos em lei e pelos órgãos de controle”.

A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) também se manifestou ao destacar que o peeling de fenol. “demanda extrema cautela, considerando sua natureza invasiva e agressiva“. Porém, enfatizou que pode ser indicado e, quando realizado de forma criteriosa e por um profissional adequado, “os resultados obtidos são incomparáveis a outros métodos esfoliativos, proporcionando uma renovação intensa da pele, estimulando a produção de colágeno e reduzindo significativamente rugas e manchas”.

Entre os riscos, citou que ser possível “que ocorram complicações, como dor intensa, cicatrizes, alterações na coloração da pele, infecções e até mesmo problemas cardíacos imprevisíveis, independentemente da concentração, do método de aplicação e da profundidade atingida na pele”.

Ao GLOBO, o cirurgião Luiz Paulo Barbosa, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) com mais de 45 anos de experiência na área, afirmou que o peeling de fenol de fato pode ter “resultados muito bons e seguros”, mas disse ser “um crime você fazer fora de centro cirúrgico, num lugar em que você não tem o controle necessário, e por alguém que não é um médico especializado”, como foi o caso em São Paulo.

Segundo o especialista, quando o fenol está sendo absorvido pela pele, ele pode causar uma arritmia, que é uma alteração da frequência cardíaca: “Quando a arritmia é fraca, você nem percebe, é mais comum. Mas se for grave, é preciso ter o acompanhamento de um anestesista e dos equipamentos necessários, como respiratório, medicamentos e desfibrilador, para identificá-la e revertê-la. Se não for revertida, pode levar à parada cardíaca e à morte. Por isso não pode ser feito por leigos. Você não pode em hipótese alguma fazer isso numa clínica, o risco de problemas é enorme.”

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