A eleição começou. A hipocrisia também.

Por Rivelino Liberalino

A campanha eleitoral mal começou e a velha hipocrisia brasileira já subiu ao palanque. Antes de aparecerem projetos, metas, números, explicações e compromissos, reapareceu o método mais preguiçoso e eficiente da nossa política: escolher uma frase repugnante do adversário, recortá-la, transformá-la em peça de propaganda e oferecer ao eleitor a indignação pronta, embalada e partidariamente higienizada. A propaganda eleitoral nas ruas e na internet está oficialmente autorizada desde 16 de agosto.

Foi exatamente o que apareceu no meu feed. Uma deputada federal do PCdoB, candidata à reeleição, recuperava a fala em que Jair Bolsonaro disse que teve quatro filhos homens e, ao nascer sua filha, teria dado uma “fraquejada”. A declaração é verdadeira. Foi feita em 2017, numa palestra no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro. E é uma frase grosseira, machista e indefensável. Não há necessidade de procurar desculpa, contexto salvador ou tradução benevolente. Uma filha não é fraqueza. Uma mulher não é falha da natureza. Ponto.

Mas Jair Bolsonaro nem sequer disputa a Presidência nesta eleição. O candidato registrado pelo PL é Flávio Bolsonaro. Ainda assim, o pai continua sendo utilizado como espantalho, bandeira e atalho emocional. Isso faz parte do jogo político. O que não pode fazer parte de uma democracia adulta é a existência de uma moral com legenda, uma ética que muda de vocabulário conforme o autor da frase e uma indignação que só funciona contra o outro lado.

Foi por isso que comentei a publicação. Não agredi ninguém. Não absolvi Bolsonaro. Não neguei a gravidade da fala. Apenas fiz a pergunta que o fanatismo não suporta: a régua utilizada para ele vale também para Lula, para os artistas admirados pela esquerda e para as figuras protegidas pelo nosso próprio campo afetivo e ideológico?

Porque Lula, em conversa telefônica divulgada em 2016, perguntou onde estavam as “mulheres do grelo duro” do seu partido. Em 2000, uma gravação o mostrou fazendo a piada preconceituosa de que Pelotas seria cidade “exportadora de veado”. Os contextos não são idênticos: uma fala ocorreu numa palestra, outra numa conversa telefônica e outra num diálogo gravado durante uma campanha municipal. Contexto importa. Mas contexto não pode funcionar como sabão partidário, capaz de lavar a frase do aliado e tornar indelével a do adversário.

Se chamar o nascimento de uma menina de “fraquejada” é machismo e é reduzir mulheres a uma expressão sexual vulgar também não se transforma em linguagem popular inofensiva porque saiu da boca de Lula. Se uma piada contra homossexuais é preconceituosa quando vem da direita, ela não vira folclore quando vem da esquerda. A dignidade humana não consulta ficha de filiação antes de existir.

E foi aí que recordei algo ainda mais profundo. Em 1973, Gilberto Gil interpretou “Minha Nega na Janela”, composição de Germano Mathias e Doca. Basta o fragmento “Êta nega, tu é feia, que parece macaquinha” para compreender o problema; o restante da canção descreve submissão doméstica e violência física contra a mulher.

Em 1985, Luiz Caldas e Paulinho Camafeu lançaram “Fricote”, cujo verso “Nega do cabelo duro, que não gosta de pentear” reproduzia um estereótipo racista que multidões cantaram e dançaram durante anos.

Não menciono isso para cancelar Gilberto Gil, destruir Luiz Caldas ou fingir que uma obra artística equivale automaticamente a uma declaração pessoal. Não equivale. Na arte existem personagem, narrativa, época, ironia, representação e contexto. Gil, inclusive, era intérprete, não autor daquela composição. Menciono porque essas obras revelam o ambiente cultural de gerações inteiras, inclusive da minha, em que frases hoje reconhecidas como racistas, machistas ou homofóbicas circulavam como brincadeira, samba, carnaval e conversa cotidiana.

A consciência humana pode e deve evoluir. Luiz Caldas deu um exemplo importante ao afirmar que hoje não escreveria “Fricote” novamente e que deixou de cantá-la por considerá-la desnecessária. Isso se chama revisão, amadurecimento e responsabilidade. O problema não é uma sociedade reconhecer que errou. O problema é reconhecer o erro somente quando ele pode ser utilizado como arma contra o inimigo.

Não quero um país em que todos sejam absolvidos porque todos já disseram alguma estupidez. Quero justamente o contrário: um país em que ninguém seja blindado pela cor da camisa. A regra é muito simples. Errou? Reconheça. Ofendeu? Peça desculpas. Aprendeu? Demonstre mudança. Mas não me apareça como fiscal da dignidade feminina enquanto esconde o machismo do seu líder. Não se apresente como guardião das minorias enquanto chama de “brincadeira” a homofobia do seu lado. Não invoque a história quando ela condena o adversário e peça esquecimento quando ela alcança o aliado.

Depois da minha manifestação, vieram horas de ataques. Era previsível. Quando faltam argumentos contra a mensagem, tenta-se desmoralizar o mensageiro. Discutem minha pessoa, imaginam minhas intenções, escolhem um rótulo e fogem da pergunta. Mas nenhum insulto respondeu ao essencial: por que a mesma frase é prova de caráter num lado e simples modo de falar no outro?

A agressão faz barulho. O argumento permanece em pé.

Essa seletividade não se limita às palavras. Ela aparece de maneira ainda mais perigosa quando o assunto é corrupção. Sobre a Lava Jato, o Brasil parece condenado a escolher entre duas mentiras.

A primeira diz que a operação foi uma cruzada imaculada, sem abusos, parcialidade ou violações. Isso é falso. O Supremo Tribunal Federal anulou as condenações de Lula por incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba e, em decisão própria, reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no processo do triplex. A consequência jurídica deve ser respeitada: aquelas condenações não existem, Lula não pode ser tratado hoje como condenado e a presunção de inocência não é favor político, mas garantia constitucional.

A segunda mentira afirma que, por causa dessas nulidades, a corrupção revelada pela Lava Jato nunca existiu e tudo não passou de uma invenção. Também é falso.

O Ministério Público Federal registrou que acordos de leniência celebrados no Paraná devolveram efetivamente R$ 6,067 bilhões aos cofres públicos e estabeleceram compromissos superiores a R$ 12,5 bilhões. Nos Estados Unidos, Odebrecht e Braskem declararam-se culpadas e aceitaram pagar pelo menos US$ 3,5 bilhões em penalidades globais acertadas com autoridades norte-americanas, brasileiras e suíças. Dinheiro imaginário não retorna ao erário. Empresas não confessam, em diferentes jurisdições, um sistema internacional de suborno que nunca existiu.

Isso prova a culpa pessoal de Lula? Não. Seria juridicamente irresponsável dizer que sim. Isso apaga a parcialidade reconhecida contra Moro? Também não. Seria intelectualmente desonesto.

As duas verdades cabem na mesma frase: houve corrupção sistêmica e houve graves violações processuais. Uma República séria combate ambas. Não escolhe entre punir o corrupto e conter o abuso estatal. Faz as duas coisas.

O mesmo rigor precisa alcançar o escândalo dos descontos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS. Milhões de pessoas tiveram valores retirados de benefícios que, para muitas delas, representam o dinheiro do remédio e da alimentação. O próprio governo informou ter devolvido, até junho de 2026, mais de R$ 3,2 bilhões a 4,7 milhões de beneficiários, enquanto Polícia Federal e Controladoria-Geral da União prosseguiram investigando o esquema. Os descontos examinados abrangem o período de março de 2020 a março de 2025 e, portanto, atravessaram mais de um governo.

Não se deve fabricar culpa pessoal sem prova, mas também não se pode vender o ressarcimento como se devolver ao aposentado aquilo que nunca deveria ter sido retirado fosse uma dádiva presidencial.

Devolução é obrigação. Investigação é dever. Explicação pública é o mínimo.

Chegamos ao ponto de ver, neste ciclo eleitoral, uma pré-candidatura ao Senado convivendo com o uso de tornozeleira eletrônica. E aqui a honestidade exige a atualização completa: as medidas cautelares foram posteriormente revogadas, e o político desistiu de concorrer ao Senado. Se eu ocultasse essa parte apenas para produzir uma frase mais explosiva, estaria praticando exatamente a manipulação que condeno. Nem investigação é condenação, nem candidatura é certificado de inocência. Cabe ao eleitor conhecer os fatos inteiros, respeitar o devido processo e fazer seu julgamento político sem falsificar o julgamento jurídico.

Enquanto isso, o espetáculo segue.

Candidato dança, candidato abraça, candidato segura criança, candidato entra na feira, candidato come diante das câmeras, candidato descobre a periferia e aprende, durante algumas semanas, o nome dos pobres. Depois da eleição, muitos deles esquecem o caminho por onde chegaram.

Meu saudoso avô dizia que a eleição era a única festa de rico para a qual o pobre era gentilmente convidado.

A frase envelheceu bem demais.

O povo fornece o cenário, o abraço, o suor, a emoção e o voto. A elite política fornece a música, a promessa e o fotógrafo. Encerrada a apuração, recolhem-se as bandeiras, fecham-se os palanques e, muitas vezes, expira o convite.

É disso que precisamos sentir vergonha. Não do pobre que acredita, porque a esperança também é uma necessidade humana. Vergonha deve sentir quem transforma a pobreza em cenário, a fome em discurso, a mulher em peça publicitária, o negro em fotografia, o aposentado em estatística e a democracia em um grande negócio de sobrevivência pessoal.

O Brasil não está sequestrado apenas por um partido, uma família ou uma ideologia. Está aprisionado por um sistema que vive da nossa memória curta e da nossa indignação seletiva. Enquanto o cidadão tratar político como ídolo, aceitará do seu ídolo aquilo que jamais perdoaria no adversário. Enquanto a eleição for campeonato de torcida, o mau-caráter só precisará escolher a camisa certa.

Não basta perguntar em quem o candidato manda você acreditar ou quem ele manda você odiar. Pergunte o que ele fez. Como votou. A que sessões faltou. O que prometeu e entregou. Quem financiou sua campanha. Como evoluiu seu patrimônio. Que alianças celebrou. Como reagiu quando a suspeita alcançou os seus. Se respeita a Constituição quando perde, a imprensa quando é criticado, o Judiciário quando é contrariado e o povo quando as câmeras são desligadas.

Voto não é declaração de amor. É contrato de poder.

Político não é pai, mito, salvador, companheiro eterno nem ser iluminado. É empregado temporário da República. E empregado público deve explicação, resultado, decência e respeito à lei.

Se você combate o machismo apenas quando o machista é adversário, você não defende as mulheres: você as utiliza.

Se combate a corrupção apenas quando o suspeito veste a cor rival, você não defende a honestidade: você defende sua facção.

Se exige devido processo apenas para os seus, você não defende a Constituição: você procura imunidade para a própria tribo.

É agora que o povo precisa acordar. Não depois do escândalo, não depois do mandato, não quando a conta chegar. Agora.

O poder pertence ao povo, mas, na prática, fica em suas mãos por poucos segundos diante da urna. Depois do “confirma”, durante quatro anos, o que restam são as consequências.

Escolha seu candidato com critério. Não pela dancinha. Não pelo abraço ensaiado. Não pelo medo fabricado. Não pela mentira confortável. Não pela frase recortada que o algoritmo mandou você odiar.

Examine caráter, competência, coerência, passado e proposta. Utilize para todos a mesma régua, inclusive para aquele em quem você pretende votar.

A eleição começou. A hipocrisia também.

A diferença é que a hipocrisia só vence quando encontra um eleitor disposto a chamar de crime no adversário aquilo que chama de brincadeira no aliado.

Acorda, Brasil.

Na cabine eleitoral, não escolha quem dança melhor. Escolha quem não fará o povo pagar a música.

Rivelino Liberalino

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