Caprinovinocultura fortalece pequenos produtores do Vale do São Francisco, movimenta a economia regional e preserva saberes históricos do semiárido pernambucano
Por Samuel Santos – Fotos: Léo Cavalcanti
Uma tradição que já garantia a sobrevivência de muitas famílias do Sertão do São Francisco se transformou em fonte de renda com forte impacto na economia local. O ofício de retalhar a carne de caprinos e ovinos criados em municípios como Petrolina, Dormentes, Afrânio e Lagoa Grande transformou um produto pecuário em mais do que alimento: um patrimônio cultural carregado de identidade. O Sebrae Pernambuco atua há mais de 20 anos no fortalecimento da caprinovinocultura, promovendo soluções para que produtores enxerguem esta cadeia produtiva como estratégica e com forte potencial de mercado.
O sucesso da carne ovina da região é resultado de um processo artesanal que envolve desde a criação dos animais até as técnicas de abate e corte. O segredo da textura e do sabor da carne do São Francisco — bastante apreciada em restaurantes locais — está na preparação. Após a retirada dos ossos, a carne é aberta em cortes finos, com espessura média de dois a três centímetros, formando uma espécie de “lençol”, característica que popularizou o termo “manta caprina”, usado para definir o produto.
Depois da salga, a carne segue para a etapa de secagem em grandes varais, prática tradicional que contribui para garantir maciez, sabor e suculência. A técnica, passada entre gerações, precisou ser aperfeiçoada para atender às normas sanitárias. No abatedouro de Petrolina, principal da região, a manta caprina representa cerca de 70% do processamento, e todo o procedimento segue as exigências do Serviço de Inspeção Municipal (SIM), garantindo segurança alimentar e qualidade ao consumidor. Segundo dados da prefeitura, são aproximadamente 15 mil abates por mês.
Território fértil para a caprinovinocultura
Grande parte da criação de caprinos e ovinos ocorre em áreas secas, fora dos perímetros irrigados. Os primeiros registros da presença desses animais no semiárido nordestino remontam ao período colonial. Raças como Rabo Largo, Morada Nova e Santa Inês se adaptaram às condições da caatinga e passaram a integrar a paisagem sertaneja.
De acordo com dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Nordeste concentra cerca de 75% do rebanho de caprinos e ovinos do Brasil. Apenas Petrolina reúne mais de 500 mil animais, segundo a Base de Dados do Estado (BDE), do Governo de Pernambuco. E o maior rebanho está justamente na região do São Francisco. A maioria dos criadores atua em bases familiares, o que faz da atividade uma importante ferramenta de geração de renda, emprego e permanência das famílias no campo.
Apesar da forte tradição, a profissionalização da cadeia produtiva ganhou mais força nas últimas duas décadas, impulsionada pelo apoio técnico de instituições como o Sebrae Pernambuco. “O principal desafio é fazer com que os produtores se enxerguem como empreendedores, muitos ainda não têm essa percepção. As consultorias envolvem desde orientações sobre alimentação do rebanho até manejo adequado e melhoramento genético dos animais. Hoje, eles produzem de forma mais organizada e com rebanhos geneticamente mais qualificados, capazes de participar de competições, leilões e alcançar maior valor de mercado”, explica Larissa Souza, especialista em agronegócio do Sebrae/PE.
Riqueza da caatinga

O diferencial da carne produzida no Vale do São Francisco conquistou espaço até entre os paladares mais exigentes. Além de movimentar restaurantes e mercados especializados, a caprinovinocultura gera oportunidades de renda e fortalece pequenos negócios do Sertão.
A carne ovina do São Francisco também poderá conquistar um reconhecimento importante em breve: a Indicação Geográfica (IG). O processo é desenvolvido por meio de uma parceria entre o Sebrae/PE e a Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco.
Com a certificação, a expectativa é ampliar a valorização da carne produzida na região, reforçando sua origem, tradição e qualidade diferenciada. A IG também pode abrir portas para novos mercados e fortalecer ainda mais a cadeia produtiva local.
Essa riqueza construída pela resiliência do povo sertanejo será apresentada no penúltimo episódio da série audiovisual Riquezas de Pernambuco, produzida pelo Sebrae/PE. Com episódios semanais exibidos no Instagram e no YouTube, a produção destaca atividades econômicas que impulsionam o desenvolvimento regional e reforçam a valorização dos territórios pernambucanos.
Blog do Didi Galvão

