Incra avança na regularização de duas comunidades quilombolas no Sertão de Pernambuco

Duas comunidades quilombolas do Sertão de Pernambuco deram passos importantes no processo de regularização de seus territórios. Em Itacuruba, a Comunidade Quilombola Negros de Gilú, formada por aproximadamente 200 famílias, avança na definição de uma área que poderá constituir sua base territorial. Já em Salgueiro e Terra Nova, a Comunidade Quilombola Contendas/Tamboril, com cerca de 110 famílias, teve o território reconhecido por meio de portaria, retomando um processo que permaneceu durante anos condicionado a uma disputa judicial.

Os avanços representam etapas distintas de uma mesma luta: garantir às comunidades quilombolas o direito ao território e criar condições para que essas populações possam permanecer e desenvolver suas atividades de forma digna e segura.

Uma comunidade que precisou recomeçar

Na década de 1980, a Comunidade Negros de Gilú perdeu o território onde viviam. A área foi inundada com a formação do Lago de Itaparica, reservatório da Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga. O deslocamento provocou uma verdadeira dispersão da comunidade e as famílias foram reassentadas em diferentes locais, algumas na Nova Itacuruba e outras em uma agrovila localizada em Jeremoabo, na Bahia.

A experiência, porém, não funcionou como esperado. A área destinada às famílias na Bahia, situada em região de sequeiro, apresentou dificuldades para a produção. Com o passar dos anos, grande parte das famílias retornou a Itacuruba. Muitas passaram a viver no bairro Caixa D’Água, mantendo, apesar da distância do território originário, os vínculos que sustentam a comunidade.

Foi em 2005 que os Negros de Gilú passaram a se reconhecer como comunidade quilombola. No ano seguinte, o processo de regularização fundiária foi instaurado no Incra. Desde então, foram anos de discussões, alternativas e busca por uma solução territorial possível.

Agora, uma definição começa a tomar forma. A proposta construída envolve uma área devoluta pertencente ao Estado de Pernambuco e a Fazenda Boa Sorte. O Instituto de Terras de Pernambuco (Iterpe) deverá titular a área devoluta em nome da comunidade, enquanto o Incra vai buscar os meios necessários para viabilizar a aquisição da Fazenda.

A escolha também guarda uma relação particular com a trajetória dos próprios quilombolas: integrantes da comunidade mantêm relações de trabalho com o proprietário da fazenda há décadas.

Depois de mais de 40 anos de desterritorialização, a perspectiva é de que os remanescentes de Negros de Gilú possam voltar a ter uma base territorial capaz de reunir parte importante de sua história e cultura.

Um processo que volta a caminhar

A história de Contendas/Tamboril tem outro percurso, mas também é marcada pela espera. Localizada entre os municípios de Salgueiro e Terra Nova, a comunidade reúne aproximadamente 110 famílias. O autorreconhecimento como quilombola ocorreu em 2005, junto à Fundação Cultural Palmares. No ano seguinte, o processo de regularização foi aberto no Incra.

Em 2008, foi publicado o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID), documento que integra uma das etapas fundamentais do processo de regularização dos territórios quilombolas.

Depois disso, porém, o processo ficou parado durante anos em razão de uma ação judicial apresentada por um proprietário particular com imóvel incidente sobre a área reivindicada pela comunidade.

Agora, o processo voltou a avançar. A publicação da Portaria de Reconhecimento do território representa uma nova etapa para as famílias de Contendas/Tamboril. O próximo passo será o Decreto de Desapropriação por Interesse Social.

A medida permitirá a continuidade da regularização da Fazenda Tamboril, imóvel que já possui mandado translativo de domínio em favor do Incra, para posterior titulação em nome da associação quilombola que representa a comunidade.

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