Esta é uma das frases mais famosas do Evangelho, dita por Jesus em Mateus 6:24, que nos lembra que é impossível ter duas lealdades absolutas.
O ensinamento completo é: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas [Mamon]”.
O uso de emendas parlamentares e verbas públicas envolvendo líderes e entidades religiosas tem sido objeto de diversas investigações e denúncias de falta de transparência e uso político no Brasil. Embora os termos legais se refiram a favorecimento político, tráfico de influência ou desvio de finalidade, a opinião pública e críticos frequentemente interpretam esses episódios como um “balcão de negócios” entre líderes religiosos e políticos.
Casos de repercussão nacional que ilustram essas relações incluem:
O caso da Assembleia de Deus (José Wellington Bezerra da Costa)
Em 2022, o pastor José Wellington Bezerra da Costa, um dos líderes mais influentes da Assembleia de Deus no Brasil, admitiu publicamente em uma reunião de obreiros que a igreja intermediava o repasse de emendas parlamentares para prefeituras paulistas. O objetivo explícito era angariar apoio político e pavimentar a eleição de seus filhos a cargos no Legislativo. O próprio pastor declarou que “a emenda só vai para o prefeito por intermédio do pedido do pastor da Assembleia de Deus”, o que gerou forte desconforto e críticas internas na própria comunidade evangélica.
Escândalo das “Emendas Pix” à Igreja Lagoinha
A Fundação Oasis, braço social da Igreja Batista da Lagoinha (liderada pelo pastor André Valadão), tornou-se alvo de investigações no Supremo Tribunal Federal (STF) e na CPMI do INSS. O senador Carlos Viana (Podemos-MG), que presidia a referida CPMI, admitiu ter repassado cerca de R$ 3,6 milhões em emendas parlamentares (incluindo modalidades conhecidas como “emendas Pix”) à fundação ligada à igreja. O ministro do STF Flávio Dino apontou séria falta de transparência e rastreabilidade na destinação desses recursos públicos, enquanto parlamentares de oposição acusaram o senador de usar as emendas para blindar a instituição de investigações.
O “Gabinete Paralelo” no Ministério da Educação (MEC)
Embora focado na liberação de verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o escândalo que derrubou o ex-ministro Milton Ribeiro envolveu diretamente os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura. Sem possuir cargos públicos, esses líderes religiosos controlavam a agenda do ministério e negociavam a liberação de recursos e emendas para prefeituras em troca de vantagens financeiras e propinas (com relatos que incluíram pedidos de barras de ouro e compra de Bíblias).
Irregularidades em Outras Matrizes Religiosas
O direcionamento problemático de emendas não se restringe às igrejas evangélicas. Um relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) apontou irregularidades na execução de R$ 1,25 milhão em emendas parlamentares direcionadas à Associação Afoxé Filhos de Gandhy, de matriz de religião de terreiro/afro-brasileira. A auditoria identificou indicação política direta, ausência de chamamento público e falhas graves na escolha de fornecedores.
Críticas ao afrouxamento da fiscalização
Especialistas e parlamentares frequentemente alertam que a flexibilização nas regras de emendas orçamentárias (como as emendas de relator e as emendas Pix) permitiu que associações criadas ou geridas por lideranças religiosas passassem a atuar como captadoras de recursos públicos sem auditorias rígidas, desvirtuando o papel social e espiritual das igrejas em favor do enriquecimento e poder político.
Blog do Didi Galvão

