Samuel Britto e a “Impuderada do Sertão, histórias de mulheres agredidas”

*Carlos Laerte

Na primeira noite eles se aproximam, ameaçam, intimidam e violentam psicologicamente uma rosa do nosso jardim. E não dizemos nada.

Na segunda noite, conhecendo nosso medo, já não se escondem, abusam física e emocionalmente, matam o roseiral e, conhecendo nosso medo, arrancam-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada. A primeira imagem que nos remete à leitura do livro “A Impuderada do Sertão, história de mulheres agredidas”, do jornalista e escritor Samuel Britto, é um mergulho no poema “No caminho com Maiakóvski” (1968), do poeta Eduardo Alves da Costa. No poema, assim como no livro, que será lançado no Senac Petrolina, no próximo dia 08 de maio, tulipas, rosas e orquídeas se confundem com Marias, Marielles e Ângelas no perigoso e insano carrossel de violência que já registra em 2026 o 1° trimestre mais letal da história para mulheres com 399 vítimas de feminicídio entre janeiro e março, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O número representa uma média de quatro mulheres mortas por dia no período — o equivalente a uma vítima a cada cinco horas no país. Ancorado em exemplos femininos de lutas e conquistas, dados e estatísticas bem apuradas, o livro do mesmo autor de ‘Maria Caminhoneira Sertanea e Seus Contos Heróicos, Românticos e Sertanejos’ (2024), nos revela a incrível história de Maria das Dores, a Maria Impuderada do Sertão. Impuderada assim mesmo, com essa escrita informal e liberta das regras estabelecidas pela gramática tradicional.

Valorizando as falas nordestinas, costumes e ritos do povo sertanejo, a obra transita entre o folclórico e o imaginário, desnudando lendas, contos e personagens de um realismo fantástico, povoado por seres sobrenaturais e fantasias arrepiantes.

Aventuras, crenças religiosas, rivalidades, feitos heróicos e outros nem tanto, vão impregnando as mais de 300 páginas da obra com as cores da imprevisibilidade e as contradições, que somente à luz da determinação, doçura e da paixão, “alguns (a que tal graça se consente) é dado lê-la”. Ilustradas com imagens a partir de recursos de IA (Inteligência Artificial) e mesclado por versos de literatura de cordel, as narrativas de ficção e de fatos reais vão se misturando numa velocidade estonteante, conduzindo o leitor por um fascinante labirinto de letras, signos e significados que mais parecem livramentos no meio de um rio revolto de maretas e marolas. Depois de exibir, à luz do dia, os antepassados de Cruz Credo, local onde se passa a história, Samuel Britto, também envereda pelas aventuras do cangaço e do fanatismo religioso, ressaltando personagens como Lampião e Maria Bonita, fontes de inspiração para os Tomés Valentias e as Marias Impuderadas. Principalmente, Maria das Dores, a heroína e guerreira da caatinga, que além de eliminar os maus tratos domésticos na sua família, ajuda a combater a violência contra toda e qualquer mulher do sertão. Evocando as orações do Credo e de Santo Expedito, o autor segue revelando a continuidade das famílias e convidando à mesma mesa a mulher, a mulher trans, parceiros íntimos ou ex-parceiros e a união de casais do mesmo sexo. Tudo nos mesmos pratos e talheres, com a mais legítima intenção: espalhar uma nova fase de paz, união e amor no sertão.

O empoderamento feminino é um movimento político, social e filosófico que luta pela equidade de gênero e participação ativa da mulher na sociedade. Essencial para o combate à violência, o movimento fomenta a autonomia econômica, emocional e política, permitindo que mulheres façam suas próprias escolhas.

*Carlos Laerte é poeta, jornalista e diretor da Clas Comunicação e Marketing.

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