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Almoxarifado e gestão de estoque: o que muda na eficiência das PMEs

A operação de estoque costuma ser tratada como um tema “de apoio” dentro das pequenas e médias empresas (PMEs). Na prática, o estoque é um ativo financeiro imobilizado, um risco operacional e, ao mesmo tempo, um pilar de atendimento ao cliente. Quando a empresa não enxerga o que entra, o que sai, onde está e por que está parado, o custo aparece em três frentes: ruptura de vendas, desperdícios e retrabalho.

Esse debate ganha nova camada atualmente, considerando que a cadeia de suprimentos opera com cada vez menos tolerância a incertezas: prazos mais curtos, exigências de rastreabilidade e integração com canais digitais aumentam a pressão por dados confiáveis. O ponto central não é “ter mais estoque”, e sim ter o estoque certo, no lugar certo, com regras claras de movimentação.

Almoxarifado como sistema de controle, não apenas um espaço

Almoxarifado não é sinônimo de depósito. Trata-se de um sistema de processos e responsabilidades voltado ao recebimento, guarda, endereçamento, separação e entrega de materiais, com registro e auditoria das movimentações.

Em empresas industriais, o almoxarifado sustenta a produção; no varejo e na distribuição, sustenta o nível de serviço; em serviços (manutenção, obras, saúde), sustenta disponibilidade de insumos críticos.

A diferença entre “um estoque guardado” e um almoxarifado operando bem está na governança:

  • Regras de entrada e saída: o item não “some” porque cada movimento gera registro e motivo;
  • Endereçamento e padronização: localizações fazem parte do controle e não dependem da memória da equipe;
  • Papéis definidos: quem recebe, quem confere, quem aprova e quem separa não são decisões improvisadas;
  • Inventário como rotina: conferência cíclica reduz surpresa e aumenta confiabilidade.

Impactos econômicos e setoriais: números que contextualizam o problema

Três conjuntos de dados ajudam a dimensionar, como exemplos práticos e impactantes para a economia nacional, por que o controle do estoque é assunto de eficiência e não apenas de organização.

O IBGE apontou que a capacidade disponível de armazenagem agrícola chegou a 227,1 milhões de toneladas no 2º semestre de 2024 (+2,1% ante o semestre anterior). No 1º semestre de 2025, a capacidade alcançou 231,1 milhões de toneladas (+1,8% sobre o semestre anterior). Ainda que esses dados sejam do universo agrícola, o recado vale para qualquer cadeia: armazenagem cresce, mas exige processos e informação para evitar perdas e gargalos.

A “Pesquisa Abrappe de Perdas no Varejo Brasileiro 2025”, divulgada pela KPMG, reportou que o índice médio de perdas caiu de 1,57% para 1,51% em 2024, mas o valor estimado de perdas chegou a R$ 36,5 bilhões. Em parte expressiva das empresas, essas perdas se conectam a quebras operacionais, furtos e erros de inventário, todos temas que passam por disciplina de almoxarifado e qualidade do registro.

Voltando ao Ministério da Agricultura (Mapa), ao tratar do tema perdas e desperdício, reproduz estimativa da FAO de que cerca de 14% dos alimentos são perdidos antes de chegar ao varejo. Embora a estatística seja global e focada em alimentos, ela ajuda a ilustrar um ponto de gestão: armazenagem e manuseio não são detalhes; são parte do “custo invisível” da operação.

Processos críticos do almoxarifado que determinam a qualidade do estoque

A eficiência do estoque costuma ser decidida em quatro momentos.

Recebimento e conferência

O recebimento é a primeira barreira contra erros que se propagam. Sem conferência física e documental, a empresa registra quantidades erradas, itens trocados ou lotes incorretos, criando divergência entre estoque contábil e físico. Para itens críticos, ganha importância o registro de lote, validade e número de série.

Endereçamento e armazenagem

A localização precisa ser parte do cadastro e do processo. Endereçamento pode ser simples (rua, prateleira, nível) e ainda assim robusto. O objetivo é reduzir o tempo de procura e evitar “estoque invisível”, quando o item existe, mas não é encontrado.

Separação, atendimento interno e expedição

Separação (picking) e entrega ao solicitante precisam de critérios: prioridade, substituição permitida, conferência por dupla checagem em itens de maior valor e registro do motivo de saída (venda, consumo, manutenção, amostra, perda). É nesse ponto que o almoxarifado se conecta diretamente à experiência do cliente: atraso na expedição muitas vezes começa com separação lenta e sem endereço.

Inventário e auditoria

Inventário anual “apaga incêndio”, mas não cria estabilidade. O cíclico por classe (ABC), por áreas e por itens de maior giro tende a reduzir divergências e a revelar causas, como erros de unidade de medida, cadastro duplicado, perdas e processos de devolução mal definidos.

Digitalização e rastreabilidade em 2026: por que o assunto saiu do “luxo”

As tendências de 2026 em armazenagem e supply chain têm enfatizado visibilidade e automação com WMS, RFID e integração entre sistemas, como discutido em análises setoriais sobre “armazenagem inteligente” publicadas no início de 2026.

Para PMEs, o ganho mais imediato nem sempre está em robótica, mas em digitalização disciplinada: cadastro consistente, registros em tempo real e integração entre compras, vendas e financeiro.

A literatura acadêmica recente reforça essa direção. Trabalhos aplicados em universidades brasileiras analisam RFID e Internet das Coisas (IoT) no contexto de inventário e almoxarifado, mostrando como identificação automática e integração com sistemas de gestão reduzem erro humano e aumentam rastreabilidade, inclusive em ambientes com alta criticidade (como hospitais) e em operações industriais.

Nesse ponto, a adoção de um ERP em nuvem atua como “espinha dorsal”: consolida cadastros, padroniza processos e permite que o dado de estoque converse com faturamento, compras, fiscal e financeiro. A integração não elimina a necessidade de processo; ela impede que o processo dependa apenas de planilhas, memória e boa vontade.

Indicadores que tornam o almoxarifado gerenciável

Para sair do campo da percepção e entrar no campo da gestão, alguns indicadores têm maior poder explicativo:

  • Acuracidade de estoque (físico vs. sistema), por categoria;
  • Giro e cobertura (dias de estoque), por família de produto;
  • Ruptura (pedidos não atendidos por falta), com causa;
  • Tempo de separação e expedição, do pedido à saída;
  • Perdas e ajustes (quebra, vencimento, avaria, furto), com classificação.

Indicadores sem ação viram relatório. O valor está em conectar cada métrica a decisões: revisão de ponto de pedido, reclassificação ABC, melhoria de cadastro, alteração de layout e treinamento de conferência.

Erros comuns que travam a evolução do estoque

Alguns padrões se repetem em PMEs que enfrentam divergências e falta de visibilidade:

  • Cadastro frágil: descrições ambíguas, unidades de medida inconsistentes, itens duplicados;
  • Entrada “por confiança”: nota lançada sem conferência física;
  • Saída sem motivo: consumo interno sem requisição ou sem centro de custo;
  • Devoluções fora do fluxo: retorno de cliente ou de produção voltando ao estoque sem inspeção;
  • Inventário apenas no fim do ano: correção tardia, sem rastrear causa.

Quando esses pontos são tratados, o almoxarifado deixa de ser um “local de guardados” e passa a operar como um mecanismo de previsibilidade.

Padronização e apoio de conteúdo: conceitos e atividades essenciais

A discussão conceitual é útil quando orienta decisões práticas: quais rotinas são indispensáveis, como documentar o fluxo e como organizar responsabilidades. P

Estoque confiável é estratégia, não burocracia

Almoxarifado bem estruturado reduz perdas, melhora o atendimento e libera capital preso em excesso de itens parados. Para PMEs, o caminho mais sustentável combina processos simples e disciplina operacional com tecnologia que centraliza informações e reduz dependência de controles paralelos.

Em 2026, a diferença competitiva tende a ficar menos em “comprar melhor” e mais em “controlar melhor”. Enxergar o estoque com acuracidade, rastrear movimentações e transformar o dado em decisão.

Referências:

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Capacidade de armazenagem agrícola cresce 2,1% e chega a 227,1 milhões de toneladas no 2º semestre de 2024. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/43686-capacidade-de-armazenagem-agricola-cresce-2-1-e-chega-a-227-1-milhoes-de-toneladas-no-2-semestre-de-2024.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Capacidade de armazenagem agrícola cresce 1,8% e chega a 231,1 milhões de toneladas no primeiro semestre de 2025. 2025. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/45116-capacidade-de-armazenagem-agricola-cresce-1-8-e-chega-a-231-1-milhoes-de-toneladas-no-primeiro-semestre-de-2025.

KPMG. Pesquisa Abrappe de Perdas no Varejo Brasileiro 2025. 2026. Disponível em: https://kpmg.com/br/pt/insights/2026/01/pesquisa-abrappe.html.

BRASIL. MINISTÉRIO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA (MAPA). Perdas e Desperdício de Alimentos. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sustentabilidade/perdas-e-desperdicio-de-alimentos.

MOREIRA, F. M. Sistema de gestão de almoxarifado com internet das coisas. 2025. Disponível em: https://repositoriocopia.utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/38875/1/almoxarifadointernetdascoisas.pdf.

PONTES, A. C. S. J. Estado de prontidão para introdução de tecnologias habilitadoras da Indústria 4.0 em ambientes de armazenagem de materiais médicos em hospitais. 2025. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/18/18156/tde-07082025-142802/publico/CORRIGIDOAndreiaCristinadaSilvaJordaoEmerenciano_Pontes.pdf.

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