Grupo de Baque Solto Sonho de Criança realiza, nesta segunda-feira de Carnaval, dia 16, um cortejo e apresentação cultural com 50 alunos, que, juntos, mostram a influência da cultura africana, indigena e europeia
Entre cores, versos, poesia e personagens que atravessam gerações, o maracatu de baque solto segue vivo como uma das tradições mais fortes da cultura popular brasileira. Resultado do encontro entre saberes africanos, indígenas e europeus, o brinquedo mantém sua continuidade na transmissão entre mestres, famílias e crianças que aprendem a brincá-lo desde cedo. Na manhã desta segunda-feira, dia 16 de fevereiro, o Maracatu Mirim de Baque Solto Sonho de Criança abre o Encontro dos Maracatus Rurais de Nazaré da Mata e reafirma o maracatu como patrimônio cultural imaterial vivido no cotidiano da comunidade.
O cortejo tem concentração no Parque dos Lanceiros, no bairro do Juá, e segue até a Praça da Catedral, no centro da cidade. Ao todo, 50 crianças e adolescentes, estudantes de escolas públicas, desfilam, ao longo de quase 3 km, levando toda força, brilho e alegria de vestir sua fantasia e de fazer parte dessa história. Caboclos, integrantes da corte, músicos e personagens dão forma à narrativa simbólica do maracatu rural e assumem, ainda na infância, a responsabilidade de representar uma tradição coletiva e secular.
A abertura do encontro pelo maracatu mirim tornou-se um dos momentos mais aguardados da programação carnavalesca, tendo em vista que o evento faz parte do calendário cultural do Estado.. É quando o público percebe que a continuidade da tradição não depende apenas dos grupos históricos, mas também das novas gerações que aprendem e recriam os saberes da cultura popular.
Há 27 anos participando do Encontro dos Maracatus Rurais, o Sonho de Criança consolidou-se como espaço de formação cultural e iniciação artística. A relação das crianças com o maracatu vem de muito antes das políticas públicas e das legislações educacionais. O aprendizado sempre aconteceu de forma comunitária, dentro das famílias, nos ensaios e na convivência com os mestres.
A Lei nº 10.639, sancionada em 2003 e ampliada pela Lei nº 11.645 em 2008, tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas brasileiras. Em Nazaré da Mata, essa relação já existia na prática cotidiana. No maracatu mirim, o que a legislação reconhece como conteúdo pedagógico aparece como experiência vivida, presente no toque dos instrumentos, nos passos ensaiados e na organização coletiva do cortejo.
É também por meio do grupo que muitos músicos e brincantes iniciam sua trajetória cultural. Um exemplo é o Mestre Anderson Miguel, que começou ainda criança no Sonho de Criança e hoje integra o Maracatu Rural de Baque Solto Cambinda Brasileira, considerado o grupo mais antigo do Brasil em atividade e sediado no próprio município.
O maracatu de baque solto surgiu entre os séculos XIX e XX, no contexto do ciclo canavieiro pernambucano, reunindo influências indígenas, africanas e europeias que permanecem visíveis na organização da brincadeira.
A corte popular, formada por personagens como rei, rainha e dama do passo, dialoga com tradições festivas europeias reinterpretadas pela cultura popular. A musicalidade coletiva e os ritmos percussivos expressam heranças africanas, enquanto a figura do caboclo estabelece vínculos simbólicos com saberes indígenas e com a relação histórica entre cultura e território na Zona da Mata Norte.
Entre os personagens centrais estão os caboclos de lança, reconhecidos pelas golas bordadas e pelos penachos coloridos que transformam o desfile em espetáculo visual e simbólico. No cortejo deste ano participam cerca de 20 a 25 caboclos de lança e quatro caboclos de pena, além da corte e da orquestra, responsável por conduzir o ritmo da apresentação.
Este ano, o grupo, vem realizando, com incentivo da Fundarpe, Secretaria de Cultura e Governo de Pernambuco, por meio dos recursos do Funcultura, um projeto de manutenção, o qual inclui, restauração das indumentárias, formação continuada, entre outras ações, para o fortalecimento e preservação da brincadeira e participação das crianças.
Blog do Didi Galvão

