Chega: Um adolescente morreu, e a nossa omissão está matando junto

O adolescente Rodrigo Castanheira, de apenas 16 anos, faleceu ontem, no sábado, depois de dias de agonia, apreensão e oração. Foram dias em que uma família inteira viveu o pior tipo de espera: aquela em que o tempo vira tortura, e cada minuto é uma súplica.

Um menino.

Um filho.

Um futuro inteiro.

Na madrugada de 22 de janeiro, após uma discussão por um chiclete, Rodrigo foi espancado. Sofreu parada cardíaca por 12 minutos, teve parte do crânio removida, permaneceu em coma em UTI. E agora, depois de tanta luta, ele se foi.

O agressor, Pedro Arthur Turra, de 19 anos, foi preso em flagrante. No dia seguinte, pagou R$ 24,3 mil de fiança e saiu.

E o que mais dói, além da tragédia em si, é a frieza institucional que tenta transformar o inaceitável em algo “administrável”.

Na audiência, a magistrada entendeu que a conduta do agressor “não evidencia periculosidade exacerbada”, e que “não se vislumbra dolo de atingir resultado mais lesivo”.

Não se vislumbra?

Um adulto de 19 anos contra um adolescente de 16. Um corpo em cima de outro. Um espancamento. Uma parada cardíaca. Um crânio aberto. Um coma. Uma morte.

Se isso não é lesivo, o que é?

Enquanto a burocracia procura palavras para aliviar o peso de uma decisão, um delegado, homem duro, calejado, acostumado com o pior do mundo, chorou em público. Chorou porque viu o que muita gente finge não ver: ali não havia “apenas um caso”. Ali havia um padrão.

Quatro inquéritos policiais contra o mesmo agressor. Tortura. Violência. Reincidência. Medo das vítimas. Mais de dez pessoas temendo denunciar. E mesmo assim, ele saiu.

O delegado fez o que o Estado deveria fazer sempre: reuniu provas, ouviu vítimas, documentou padrões, enxergou pessoas. E quando a emoção rompeu a armadura, ele disse o que qualquer cidadão comum diria com o coração na mão:

“Ele não tem condição de viver em sociedade.”

E é aqui que o Brasil precisa parar.

Precisa parar de fingir que isso é só mais uma tragédia.

Precisa parar de tratar como “normal” a barbárie.

Precisa parar de criar filhos sem limite e depois se surpreender quando o mundo colhe violência.

Porque a verdade é dura, mas é simples:

a violência não nasce do nada.

A violência é filha da omissão.

A violência é filha da permissividade.

A violência é filha da ausência.

A violência é filha de uma geração criada sem ouvir “não”.

A violência é filha de um tempo em que caráter virou acessório, e o acessório é opcional.

E quem acha que isso é exagero, que olhe para os fatos recentes.

Um indígena Pataxó já foi queimado vivo. Queimado.

E nós assistimos como se fosse “mais uma notícia”, como se fosse “mais um caso”, como se não fosse um retrato do adoecimento moral de um país inteiro.

Tivemos também, há pouco tempo, jovens que mataram um cãozinho com requinte de perversidade, filmaram, divulgaram, exibiram a crueldade como troféu. O cãozinho “Orelha”. Uma vida inocente transformada em palco de sadismo.

E aqui está o ponto: isso não é apenas violência. Isso é perversidade.

Isso é o prazer em destruir.

Isso é o colapso da empatia.

Isso é a morte da humanidade.

E quando uma sociedade começa a produzir jovens que riem enquanto torturam, seja um animal indefeso, seja uma pessoa vulnerável, ela precisa entender que o problema não é “pontual”.

O problema é estrutural.

É familiar.

É cultural.

É institucional.

É espiritual.

E aqui eu falo como pai.

Há cerca de 10 anos, minha filha, então com 10 anos de idade, me surpreendeu com um pedido: queria um iPhone.

E eu perguntei: “Por quê?”

Ela respondeu com a sinceridade típica da infância: porque a coleguinha ganhou, porque os pais deram.

E ali, naquele instante, eu entendi uma coisa que muitos pais não estavam percebendo: até na infância, onde antes havia sociabilidade, igualdade, brincadeira pura, sem acepção, sem barreiras, sem distinções, já estava se formando a “turminha do iPhone”.

Ou seja: eu não estava lidando com um objeto.

Eu estava lidando com um símbolo.

Com um marcador social.

Com uma porta aberta para um tipo de mundo em que criança deixa de ser criança cedo demais e começa a aprender a separar, comparar, competir e excluir.

E isso é grave.

Porque quando a infância perde a simplicidade, a humanidade começa a perder o chão.

Eu expliquei para minha filha, com calma, que aquele iPhone não era um símbolo de amor.

Eu disse que o verdadeiro amor estava nos milhares de beijos que eu e a mãe dela damos. Nos “eu te amo” repetidos. No cuidado diário. Na atenção. No olhar. No colo. Na conversa. Na correção. Na disciplina. Na proteção.

E eu disse, do meu jeito, com a verdade que eu carrego:

se meus filhos fossem pirulitos, já teriam se dissolvido de tanto eu e a mãe lamber essas nossas crias.

E eu disse mais: eu não troco isso por nada.

Porque eu sei, e qualquer pai que presta sabe, que não adianta ganhar o mundo e perder um filho para a droga, para a violência, para a indiferença, para o vazio, para o ódio, para o vício, para a perversidade.

Minha esposa abriu mão da própria atividade profissional para viver a maternagem. Para acompanhar de perto. Para estar presente. Para formar.

E eu digo isso com reverência, porque maternagem não é fraqueza. É força. É sacrifício. É construção. É o que sustenta o mundo e ninguém valoriza.

E por que eu digo isso?

Porque eu vejo o que está acontecendo com as famílias.

Muitos pais estão terceirizando tudo:

terceirizam educação,

terceirizam limite,

terceirizam valores,

terceirizam caráter.

E quando dá errado, culpam a escola.

Mas não é a escola que tem que dar caráter.

Não é a escola que tem que ensinar respeito.

Não é a escola que tem que formar humanidade.

A escola ensina conteúdo.

Quem ensina vida é a casa.

E o que temos hoje em muitas unidades de ensino é a vivência do que há de pior no ser humano: competição, vaidade, superioridade, humilhação, disputa de ego, bullying, crueldade travestida de brincadeira.

Alguns colégios não têm alunos. Têm clientes.

E cliente não pode ser contrariado.

O problema é que filho não é cliente.

Filho é missão.

Filho é responsabilidade.

E criar não é apenas dar.

Criar é orientar.

Criar é corrigir.

Criar é vigiar.

Criar é acompanhar.

Criar é formar.

Porque o preço da omissão é alto.

E quem paga, muitas vezes, são vidas.

Rodrigo pagou.

E é impossível não colocar essa morte dentro do cenário maior do Brasil.

Vivemos um país polarizado, dividido, manipulado. Um país onde a classe política dá banho de água fria no povo, seja de qual espectro for. Eles se xingam, brigam, encenam, inflamam as massas e quando chega a hora de aumentar as próprias verbas, convergem como irmãos.

E nós pagamos a conta.

E enquanto isso, o povo adoece.

O Brasil adoece.

A violência cresce.

A frieza cresce.

A banalização da vida cresce.

E os nossos jovens, muitos deles, estão sendo criados sem freio, sem limite, sem reverência, sem respeito e depois o mundo se assusta quando a brutalidade explode.

Eu não estou falando de política partidária.

Estou falando de civilização.

Estou falando do básico.

Estou falando do que sustenta qualquer sociedade saudável: valores, disciplina, ética, dignidade, humanidade.

Conhecimento sem disciplina é perigo.

Conhecimento sem ética é ameaça.

Conhecimento sem caráter é tragédia.

E quando um país começa a relativizar o valor da vida, ele entra num caminho sem retorno.

Por isso, eu digo: chega.

Que essa morte não seja apenas mais um luto.

Que essa morte seja um marco.

Que os pais acordem.

Que as mães acordem.

Que a sociedade acorde.

Que a Justiça enxergue que há casos que não são apenas “processos”.

São pessoas.

São vidas.

São famílias destruídas.

E que Deus entre de novo nas casas, não como discurso vazio, mas como fundamento real de valores, reverência, humildade, consciência.

Porque a morte é a grande niveladora.

Ela chega para ricos e pobres.

Para fortes e fracos.

Para arrogantes e humildes.

Ela não respeita fama.

Não respeita dinheiro.

Não respeita vaidade.

E ela vem, silenciosa e certeira, para nos lembrar que somos passageiros.

E que é ridículo viver como se fôssemos eternos.

Rodrigo se foi.

E a pergunta que fica, queimando no peito, é uma só:

quantos Rodrigos ainda precisarão morrer para que os pais entendam que filho não é troféu, não é vitrine, não é projeto de ego, mas responsabilidade?

Porque no dia em que a família se omite e a Justiça relativiza, o Brasil não perde apenas um adolescente.

Perde o direito de fingir que ainda é uma sociedade.

Bel. Rivelino Liberalino OAB/PE 534/B

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