A debandada nas Forças Armadas deixou de atingir apenas jovens oficiais e já alcança oficiais superiores, pilotos-instrutores e engenheiros da Marinha e da FAB. Portarias publicadas em janeiro de 2026 indicam um impacto estrutural na formação, na retenção de quadros estratégicos e na capacidade operacional da Defesa.
Revista Sociedade Militar
A saída voluntária de militares altamente qualificados deixou de ser um fenômeno periférico e passou a assumir contornos preocupantes dentro das Forças Armadas e para a própria sociedade, que está atenta a evasão de oficiais, apelidada de debandada. 15 portarias publicadas apenas nas primeiras semanas de janeiro de 2026 revelam uma sequência de pedidos de demissão envolvendo pilotos, engenheiros, médicos e oficiais superiores da Força Aérea Brasileira e da Marinha do Brasil.
O dado mais sensível é que não se trata apenas de jovens oficiais em início de carreira: majores aviadores e capitães experientes, que assumem inclusive funções de instrutores na formação de pilotos militares, também decidiram abandonar a farda, em busca de melhores salários, previsibilidade de rotina e condições de trabalho mais humanizadas no setor civil.
No caso da Aeronáutica, a lista de desligamentos oficiais publicada no Diário Oficial expõe uma sangria silenciosa em áreas críticas, especialmente na aviação militar. A perda de um piloto não representa apenas um número estatístico: envolve anos de formação custeada pelo Estado, treinamento operacional complexo e conhecimento acumulado que obviamente não se recompõe no curto prazo.
Oficiais da FAB com portaria de demissão em janeiro de 2026
As portarias do Comando da Aeronáutica registram os seguintes desligamentos voluntários do serviço ativo neste início de ano:
A presença de majores aviadores na lista chama atenção especial. Trata-se de oficiais que já ultrapassaram a fase inicial da carreira, acumulam experiência operacional relevante e, em muitos casos, já ocupando ocupar funções de liderança e instrução. Quando esse perfil opta por sair das Forças Armadas, abandonando uma carreira que poderia leva-los até os quadros de oficiais generais, o sinal é claro: o problema não está apenas na adaptação dos mais jovens.
Marinha também registra evasão de oficiais
Na Marinha do Brasil, o cenário é semelhante. Portarias publicadas em janeiro de 2026 confirmam pedidos de demissão de oficiais, inclusive na área médica, considerada estratégica para a Força. Além desse caso individualizado, a própria Marinha publicou normas tratando da transferência para a reserva ou demissão a pedido, indicando que o fluxo de saídas voluntárias passou a demandar regulamentação mais frequente e detalhada.
Um piloto da Marinha, ouvido sob condição de anonimato, relata que, internamente, a insatisfação tem sido tratada de forma defensiva pelos escalões superiores. Segundo ele, “os almirantes dizem que o problema está na gente, não na Força”. O militar afirma que há Capitães de Corveta aviadores, inclusive oficiais instrutores, em processo de demissão, o que ele considera gravíssimo, por atingir diretamente o processo de formação de novos pilotos.
Por que pilotos e oficiais experientes estão indo embora
Levantamentos internos da Marinha do Brasil ajudam a compreender o pano de fundo desse movimento. Oficiais com até 10 anos de serviço apontam, de forma recorrente, salários baixos, falta de tempo para a vida familiar, escalas imprevisíveis, dedicação exclusiva e dificuldade para estudar como fatores centrais de insatisfação. Entre pilotos, esse quadro se agrava pela comparação direta com o mercado civil.
Ex-oficiais da aviação naval e da FAB relatam de forma recorrente que no setor privado é possível trabalhar cerca de 80 horas de voo mensais e alcançar remunerações próximas ou superiores a R$ 20 mil, com jornadas mais previsíveis e sem a sobrecarga administrativa típica da vida militar. O contraste com a rotina castrense — que soma horas de voo, escalas, expediente completo e missões extras — tem pesado cada vez mais na decisão de saída.
Um alerta estrutural para a Defesa
A leitura das portarias de janeiro de 2026 revela mais do que casos isolados. Elas compõem um padrão de evasão que atinge áreas sensíveis da Defesa, como a aviação militar, a engenharia e a saúde. A perda de oficiais superiores, especialmente majores aviadores, desmonta a narrativa de que a debandada seria apenas um “problema geracional”.
O desafio colocado às Forças Armadas é claro: reter profissionais altamente qualificados em um contexto de mercado civil competitivo, valorização do tempo pessoal e cobrança crescente por qualidade de vida. Sem mudanças estruturais na gestão da carreira, da rotina e das condições de trabalho, a tendência é que listas como as publicadas neste início de ano no Diário Oficial da União se tornem cada vez mais frequentes — e cada vez mais estratégicas em seu impacto.
Blog do Didi Galvão

